Bélgica – Entre abadias, estradas molhadas e cervejaria belga
- Vander Teles

- 29 de mai.
- 4 min de leitura
Existem viagens que começam no aeroporto.Outras começam muito antes — talvez no primeiro gole de uma cerveja trapista, no eco distante de uma praça medieval ou naquela fotografia esquecida há anos dentro de uma pasta chamada “um dia”.
Com a Bélgica foi assim.
Antes mesmo de pisar naquele país, ela já existia ao meu redor através das histórias do meu cunhado, Dennis. Em cada conversa, em cada cerveja aberta com reverência, em cada relato sobre pequenas cidades medievais, abadias silenciosas e bares escondidos entre ruas de pedra, a Bélgica começava lentamente a ganhar forma dentro de mim.
Dennis conhece aquele país como quem pertence a ele. Não como turista, mas como alguém que construiu uma ligação emocional verdadeira com aquela terra.
Há mais de 18 anos ele retorna à Bélgica quase como quem volta para casa. E foi justamente através do olhar dele — apaixonado, atento aos detalhes e profundamente conectado à cultura belga — que essa viagem começou muito antes do embarque.
E talvez toda grande viagem comece exatamente assim: primeiro no coração de alguém, depois no nosso.
Em abril de 2026, desembarcamos em Paris, pegamos um carro alugado ainda com o cheiro de novo e seguimos estrada adentro. Sem pressa. Sem roteiro rígido. Apenas a vontade de descobrir pequenos vilarejos, abadias silenciosas, bares escondidos e cervejarias que parecem ter parado no tempo.
O plano era simples: atravessar a Bélgica como quem folheia um livro antigo.
E foi exatamente isso que encontramos. O roteiro contemplava: Peruwels, Mons, Poperinge, Bruges, Bruxelas, Ardenas, La Roche-en-Ardenne, Houffalize, Orval e Chimay.
Peruwelz
A primeira parada foi em Peruwelz. Uma cidade pequena, tranquila, dessas onde o tempo parece caminhar mais devagar repleta de cervejarias belgas.
Ali já entendemos uma das grandes verdades da Bélgica: as melhores experiências quase nunca estão nas capitais.
Visitamos a Brasserie De Ranke, conhecida entre apaixonados por cerveja artesanal por manter receitas ousadas e incrivelmente equilibradas. Nada de turismo exagerado. Apenas tanques, aroma de malte e gente que leva cerveja a sério. Respeitando e muito a cervejaria belga.
À noite, a praça central parecia saída de um filme europeu dos anos 90. Luzes amareladas, mesas espalhadas pela rua e um frio que pedia algo forte no copo.
E ainda havia a misteriosa Diôle Tavern, quase escondida, como se esperasse apenas viajantes atentos.
Foi ali, no La Central Bar, que a viagem realmente começou.
Dormimos no Hotel Saint Daniel com aquela sensação rara: a de que a estrada prometia muito mais do que imaginávamos.
Mons
O segundo dia trouxe um cenário completamente diferente.
O Château de Beloeil parece surgir do nada. Um castelo cercado por jardins geométricos perfeitos, lagos silenciosos e uma atmosfera aristocrática que contrasta com a simplicidade das pequenas estradas belgas.
Depois seguimos para Mons a capital da Cultura.
Mons tem algo difícil de explicar. É elegante sem esforço. Histórica sem parecer museu. Caminhar por suas ruas faz você diminuir o ritmo naturalmente.
O almoço no Le Saint-Germain foi daqueles momentos em que a viagem desacelera por alguns minutos só para lembrar que comer também é uma experiência cultural.
Mais tarde visitamos a tradicional Brasserie St-Feuillien e terminamos o dia na La Maison des Brasseurs, mergulhando ainda mais na cultura cervejeira belga.
E então percebemos algo curioso: na Bélgica, cerveja não é bebida. É patrimônio.
Terceiro dia — O encontro com Westvleteren
Existem lugares que carregam uma espécie de aura.
Abadia de São Sisto de Westvleteren é um deles.
Chegar ali é quase um ritual para amantes de cerveja. Estradas estreitas, campos verdes intermináveis e um silêncio monástico que parece envolver tudo ao redor.
A famosa Westvleteren não faz propaganda. Não busca fama. E talvez justamente por isso tenha se tornado lendária.
Depois seguimos para Poperinge, cidade ligada historicamente ao cultivo de lúpulo.
Dormimos no clássico Hotel de la Paix e visitamos a Brouwerij St.Bernardus, onde tradição e identidade visual convivem perfeitamente.
Ali começava a surgir outra camada da viagem: a estética.
A Bélgica é absurdamente fotogênica.
Quarto dia — Bruges parece inventada
Bruges não parece real.
As ruas de pedra, os canais refletindo luzes douradas e o som dos sinos transformam qualquer caminhada em cinema.
Foi um dos dias mais intensos da viagem.
Entre uma cervejaria e outra, parecia impossível guardar a câmera.
Passamos pela clássica Bierbrasserie Cambrinus, seguimos para a Brouwerij De Halve Maan — casa da famosa Straffe Hendrik — e encerramos a noite no subterrâneo do lendário Le Trappiste.
Um bar escondido sob estruturas medievais.
Como se Bruges ainda guardasse segredos.
Bruxelas — caos, neon e copos infinitos
Depois de vilarejos silenciosos, Bruxelas chega como um choque.
Mais urbana. Mais intensa. Mais caótica.
Mas ainda assim fascinante.
Entre bares históricos, ruas cheias e turistas do mundo inteiro, encontramos lugares icônicos como o Delirium Café e o excêntrico Poechenellekelder.
E existe algo quase mágico em terminar a noite belga segurando um copo pesado de cristal enquanto a cidade segue viva do lado de fora.
Ardenas — onde a Bélgica muda de rosto
Então a Bélgica mudou novamente.
As Ardenas trouxeram montanhas, neblina, rios e pequenas cidades escondidas entre florestas.
Visitamos a lendária Brasserie d'Achouffe, lar dos famosos gnomos da La Chouffe.
Seguimos para La Roche-en-Ardenne e depois Houffalize.
Ali a Bélgica parecia outro país.
Mais fria. Mais misteriosa. Mais contemplativa.
Orval e Chimay
O fim da viagem nos levou a dois nomes quase sagrados para amantes de cerveja: Abadia de Orval e Abadia de Scourmont.
Locais onde espiritualidade, silêncio e tradição convivem há séculos.
E talvez tenha sido esse o maior aprendizado da Bélgica.
Ela não tenta impressionar.
Ela conquista nos detalhes.
Na espuma perfeita. Na praça vazia ao anoitecer. No reflexo dourado dos prédios antigos. No som distante de um sino ecoando pelas ruas frias.
E quando percebemos… já estávamos completamente apaixonados pelo caminho.



































































































































































































































































































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